Sementes transgênicas reduzem a biodiversidade, aponta estudo da Unicamp

Quando o assunto é agricultura transgênica, um dos principais perigos apontados por especialistas é a redução da diversidade de sementes. Por meio do vento, da chuva, pássaros e insetos, o pólen de plantas transgênicas é levado para lavouras convencionais. Nesse processo de contaminação, as sementes convencionais, também conhecidas como crioulas, vão desaparecer.

O prejuízo é grande porque essas variedades, naturais, poupam o solo do desgaste ao mesmo tempo que produzem relativamente bem durante muito tempo, independentemente das condições climáticas. Indispensáveis à soberania dos agricultores em seus programas de melhoramento genético, que levam anos e até gerações, são também estratégicas para a segurança alimentar.

Já as geneticamente modificadas, criadas em laboratório com a promessa de maior produtividade, dependem de grande quantidade de fertilizantes químicos, que desequilibram o solo, e de agrotóxicos, que prejudicam a saúde humana e ambiental. Protegidas por patentes, são mais caras e controladas pela indústria, que vende ao agricultor em promoções aparentemente vantajosas, em vendas casadas, muitas vezes atreladas a empréstimos financeiros.

Contrariando argumentos dessa indústria, um estudo do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imeecc) da Unicamp vem reforçar os argumentos dos riscos à biodiversidade pela contaminação das lavouras pelos transgênicos. “Com o tempo, a coexistência desses dois tipos de lavouras deve levar à queda na produtividade de ambas. Porém, a redução será bem maior na variante natural”, afirma o matemático e professor da Universidade Federal deAlagoas (Ufal) Rinaldo Vieira da Silva Júnior, autor do trabalho para seu doutoramento.

Aos longo de quatro anos, ele aprofundou a leitura sobre biotecnologia, genética, produção agrícola, meio ambiente e saúde. Paralelamente, desenvolveu os modelos matemáticos – conjunto de equações articuladas com softwares computacionais – que utilizaram informações disponíveis em bancos de dados de instituições e na literatura científica para chegar a tal conclusão.

“Para conduzir o trabalho, simplificamos as suposições para as simulações, trabalhando com um cenário em que as variedades de semente deveriam ser da mesma espécie de planta, que as duas plantações ocupam áreas contíguas, que a velocidade de dispersão do pólen pelo vento é uniforme, e que a competição entre ambas por nutrientes do solo, por exemplo, seja equilibrada. Isso para que um organismo dominante não elimine o outro, inviabilizando assim a comparação”.

Como ele destaca, essas simplificações compõem um primeiro estudo. E que modelos mais complexos poderão ser desenvolvidos futuramente, em estudos para antever o impacto de transgênicos no meio ambiente de forma mais abrangente, o que depende da parceria de especialistas em agronomia, para investigar o comportamento do modelo matemático a partir de um cenário real.

Método

Conforme a professora da Universidade Federal de Pernambuco e orientadora do trabalho, Solange da Fonseca Rutz, um diferencial é a utilização da Trofodinâmica Analítica, um método de modelagem matemática da dinâmica de ecossistemas, entre outros processos biológicos, com ênfase na análise da sua estabilidade e evolução. Tem sido usado largamente em outros países, como o Canadá.

“Em vez de trabalhar com dados estatísticos, como outros modelos matemáticos largamente utilizados, utilizamos também variantes que podem alterá-los. Com isso é possível estimar, entre outras coisas, alterações determinadas por circunstâncias ambientais”, explica Solange.

Entre essas circunstâncias ambientais, conforme destaca, está o fato de as sementes transgênicas terem sido desenvolvidas em laboratórios para serem resistentes a determinadas pragas, por exemplo, e serem testadas em ambientes diferentes daqueles em que serão plantadas e cultivadas. “Deve ocorrer alterações na biodiversidade como ocorre no cultivo de qualquer espécie atípica. É o caso do eucalipto, por exemplo, trazido da Austrália, que altera o solo. Espécies que não são do nosso bioma trazem impacto”, compara a professora, que tem experiência em modelagem matemática e computacional em Biologia.

“Estima-se que no caso de uma planta alterada artificialmente em laboratório deve ser bem pior; o impacto seja bem maior”, afirma, referindo-se aos danos que as lavouras transgênicas possam causar ao meio ambiente como um todo.

“E a queda de produtividade das sementes crioulas, até o seu desaparecimento, deve ser bem maior na realidade do que nas simulações feitas para o trabalho. O problema é que estamos perdendo algo sobre o que nem estudamos o suficiente. Não conhecemos a fundo o potencial das sementes crioulas para a obtenção de medicamentos e mesmo na produção de alimentos.”

Catástrofes

O coordenador do grupo de trabalho sobre agrotóxicos e transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o agrônomo Leonardo Melgarejo, considera que, apesar da necessidade de mais estudos, com simulação de condições mais realistas, o trabalho é oportuno porque abre caminho para a antecipação de informações. “Podem significar a diferença entre antecipar catástrofes ou conhecê-las só após terem ocorrido. Algo como dirigir usando o farol de milha ou o retrovisor”, compara.

Ele acredita que esse método analítico permitirá simular e projetar impactos dos organismos geneticamente modificados ainda não liberados no mercado, contribuindo ainda para decisões de conveniência e oportunidade a serem tomadas pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) no momento de acatar ou rejeitar recomendações da CTNBio”, diz . “Infelizmente, o CNBS não tem se reunido e não tem tomado tais decisões, que lhe cabem por lei.”

Além disso, segundo ele, o trabalho reitera informações empíricas disponíveis. “Reforça que há mecanismos de mercado que levam à dominância de sementes transgênicas e ao desaparecimento, ao sumiço, ou dificuldade para obtenção das demais.”

E isso, conforme destaca, numa simulação que exclui pressões comerciais. “Nas variedades naturais, de uso comum, suas sementes tenderiam a desaparecer, sendo substituídas por sementes protegidas pelo direito de patente. Isso é muito relevante em contexto de acelerada mudança climática, onde se faz imperioso trabalhar com um máximo de diversidade e variabilidade genética.”

Cida de Oliveira
Da RBA