Estudo mostra
que altas taxas de suicídio em zonas rurais podem estar associadas
ao uso inadequado de agrotóxicos
A Medicina e a prática já
comprovaram, de forma inconteste, que o uso descontrolado de agrotóxicos
é maléfico não só à saúde
de quem consome alimentos contaminados, mas também a dos agricultores
que os aplicam sem observar as medidas de proteção e dosagens
recomendadas. A Organização Mundial da Saúde estima
que ocorram anualmente no mundo cerca de 3 milhões de intoxicações
agudas provocadas pela exposição aos agrotóxicos,
com aproximadamente 220 mil mortes por ano.
Um estudo publicado no mais recente
fascículo dos Cadernos de Saúde Pública –
revista bimensal editada pela Escola Nacional de Saúde Pública
da Fundação Oswaldo Cruz – revela que, além
de prejudicar a saúde física, os agrotóxicos representam
ameaças, também, à saúde mental.
O trabalho foi desenvolvido pelos
pesquisadores Dario Xavier Pires e Maria Celina Piazza Recena, ambos
do Departamento de Química da Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul, e Eloisa Dutra Caldas, da Faculdade de Ciências da Saúde
da Universidade de Brasília.
Com o título Uso de agrotóxicos
e suicídios no Estado do Mato Grosso do Sul, Brasil, eles enumeram
as conclusões observadas após pesquisarem as prevalências
das tentativas de suicídio provocadas pela exposição
a agrotóxicos de uso agrícola no Estado do Mato Grosso
do Sul, ocorridas entre janeiro de 1992 e dezembro de 2002. Nesses dez
anos, se basearam nos registros das notificações de intoxicação
do Centro Integrado de Vigilância Toxicológica da Secretaria
de Saúde do Estado. Foram registradas 1.355 notificações
de intoxicação, sendo 506 tentativas de suicídio,
que levaram a 139 óbitos.
A ingestão voluntária
de agrotóxicos, nos níveis críticos apresentados
na microrregião de Dourados, com cerca de 15 municípios,
despertou a curiosidade dos pesquisadores. “Algumas coisas foram
ficando evidentes e nos levando à
conclusão de que deviam ser melhor investigadas”, diz o
professor Dario Pires. Essas investigações levaram à
uma associação entre o uso incorreto de agrotóxicos,
a tendência à depressão e, por conseqüência,
ao suicídio.
Não se pode afirmar com absoluta
segurança que a contaminação por pesticidas influencie
diretamente a taxa de suicídios, de modo a elevar esse tipo de
ocorrência. Mas o professor Dario Pires diz que todos os dados
auferidos apontam nesse sentido e recomenda maior atenção
a estes fatos pelos órgãos de vigilância sanitária
e controle epidemiológico do Mato Grosso do Sul.
No trabalho publicado, os pesquisadores
se utilizam de vários estudos para corroborar tal tese. Um deles,
feito após um desastre ecológico com o organofosforado
parationa metílica, no estado norte-americano do Mississipi,
observou que, independentemente dos níveis do agrotóxico
encontrado na água consumida, mais da metade das pessoas expostas
apresentava sintomas de depressão. Outros cientistas norte-americanos
também encontraram uma relação
direta entre a ocorrência de sintomas de intoxicação
com organofosforados em agricultores do Estado do Colorado e sintomas
de depressão. No Brasil, um estudo realizado nos municípios
de Antônio Prado e Ypê, no Rio Grande do Sul, indicou que
a ocorrência de intoxicações agudas provocadas pela
exposição aos agrotóxicos está fortemente
associada à prevalência de transtornos psiquiátricos
menores, sendo depressão e ansiedade os diagnósticos mais
freqüentes.
Outros dados estatísticos
também abalizam essa associação. Um estudo conduzido
na Espanha detectou que a taxa de suicídios em áreas agrícolas
é significativamente maior que em outras regiões territoriais
com características sócio-econômicas e demográficas
similares. No Canadá, foi observado um significativo aumento
do risco de suicídios em grupos de agricultores que aplicavam
inseticidas e herbicidas, comparados com grupos não expostos.
Todas essas fontes são citadas no trabalho dos três pesquisadores
brasileiros, publicado nos Cadernos de Saúde Pública.
A microrregião de Dourados
estaria mais sujeita ao problema por várias razões: é
a maior produtora agrícola do Mato Grosso do Sul e concentra
um significativo universo de pequenos agricultores. “A gente sabe
que, por razões técnicas e de falta de escolaridade, eles
acabam se intoxicando”, diz Dario Pires. Além disso, a
microrregião de Dourados é a segunda produtora de algodão
no Estado, cultura que demanda quase 80% de todo o inseticida comercializado
no Brasil. “São pequenas propriedades, onde predominam
a pulverização de agrotóxicos por tratores e aplicadores
costais. Estas formas de aplicação possibilitam maior
contato do homem com os agrotóxicos e envolvem um maior número
de trabalhadores”, explica o estudo.
Hoje, Cassilândia é
a principal região algodoeira do Mato Grosso do Sul, com 71,0%
da produção atualmente. A cotonicultura lá se desenvolveu
a partir de meados da década de 1990. Apesar de apresentar a
maior demanda de inseticidas com relação a sua população
rural, aquela região possui, principalmente, médias e
grandes propriedades, onde predominam a aplicação aérea
de pesticidas. “É provável que o pouco contato humano
com os agrotóxicos, característico desta tecnologia de
aplicação, tenha relação direta com o baixo
número de notificações de intoxicação
e de tentativa de suicídio provocados pela exposição
a agrotóxicos observado neste estudo na região (oito notificações),
somente menor que a microrregião do Baixo Pantanal”, diz
o estudo.
Assim, ao final do trabalho, os
pesquisadores afirmam “ser provável” que a alta prevalência
de suicídios esteja relacionada com a exposição
dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos, “o que indica
a necessidade de se iniciar um programa de vigilância epidemiológica
na região, até agora inexistente, para melhor avaliar,
comparar e quantificar estes eventos”.
Fuente: http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=19154
17 mayo2005