Produto
tóxico atinge Rio Paraíba, mata peixes e deixa região
sem água
Por Gabriel Borges - Noviembre 2008,
Sul Fluminense
Em VR situação
deve ser normalizada dentro de 48 horas; demais cidades mantêm
captação paralisada
Ambiental: Peixes apareceram mortos
em grandes quantidades em diversos pontos do leito do rio
O abastecimento de água em Volta Redonda começou a ser
normalizado no fim da noite de ontem e dentro de até 48 horas
deve atingir sua plenitude. Ontem, alguns bairros da cidade já
começaram a receber água, após a Feema ter liberado
a captação no município. Já em outras cinco
cidades – Barra Mansa, Porto Real, Barra do Piraí, Pinheiral
e Quatis - a coleta continua suspensa e as prefeituras estão
pedindo para a população economizar água. O serviço
foi suspenso ontem por causa do vazamento de um produto tóxico
no Rio Paraíba do Sul, que causou a mortandade de milhares de
peixes. Alguns bairros de Volta Redonda já tinham água
ontem à noite.
A Servatis, empresa de processamento de produtos químicos,
reconheceu a responsabilidade pelo vazamento no rio, o principal do
Estado. O acidente aconteceu na manhã de anteontem e atingiu
o Rio Pirapetinga. Em Resende, a captação não chegou
a ser suspensa porque o acidente ocorreu fora da abrangência do
Rio Paraíba na cidade.
O líquido que vazou, segundo a Agência
de Meio Ambiente de Resende, é um composto organoclorado, utilizado
para fazer pesticidas e inseticidas. Após análise, a agência
avaliou que o produto é altamente tóxico e nocivo para
peixes e outros seres vivos do local. Segundo o órgão,
milhares de peixes apareceram mortos desde ontem no leito do Rio.
“Está uma visão pavorosa. O impacto
é brutal”, afirmou o presidente da Agência de Meio
Ambiente de Resende, Luis Felipe César.
Técnicos da prefeitura e da Agência Regional
do Médio Paraíba da Feema (Fundação Estadual
de Engenharia do Meio Ambiente) fizeram coletas ontem para um laudo
sobre o acidente.
“A dimensão dos danos ainda será
calculada, mas a empresa certamente será multada”, afirmou
César, segundo quem a Servatis é reincidente em problemas
do tipo. Ele afirmou que, há alguns meses, a empresa causou um
acidente ambiental com poluição do ar e, por isso, foi
multada em R$ 307 mil.
Em Quatis, o prefeito Alfredo de Oliveira confirmou
ontem à noite que a captação de água do
Paraíba foi suspensa, mas que a cidade se mantém com o
abastecimento de água de três córregos: Lavapés,
Primavera e Lima. No entanto, ele pediu para a população
economizar água como uma medida preventiva.
Sem abastecer
Com nascente em São Paulo, o Rio Paraíba
do Sul corta quase metade do Estado do Rio, ou 37 municípios.
Segundo a Secretaria Estadual do Ambiente do Rio, as águas do
Paraíba do Sul são a única fonte de abastecimento
para 85% da região metropolitana do Rio.
As populações
das cidades atingidas
Porto Real 14.503
Resende 118.547
Quatis 12.031
Barra Mansa 175.315
Barra do Piraí 96.282
Volta Redonda 255.653
Pinheiral 20.885
Total 693.216
Fonte: IBGE – Contagem da população
2007
Em VR, captação
foi suspensa como medida preventiva
O prefeito Gotardo Netto (PMDB) afirmou ontem que a
paralisação da captação de água na
cidade foi uma medida preventiva. “Suspendemos para fazer uma
avaliação”, disse Gotardo, explicando que foram
coletadas amostras da água do Paraíba de uma em uma hora
para saber se o rio estava contaminado.
- Se as análises continuarem dando resultados
negativos quanto à poluição, a captação
de água deve ser retomada ainda hoje - informou Gotardo.
A Assessoria de Marketing do Saae de Volta Redonda confirmou
que a captação de água do Rio Paraíba foi
retomada às 17h30 de ontem. A medida foi tomada após a
liberação da Feema. Ainda de acordo com a assessoria,
o abastecimento estará normalizado em todos os pontos da cidade
em até 48 horas, com uma demora maior nas localidades altas do
município.
O diretor do Saae, Paulo César
de Souza, o PC, informou que foi detectado, em exames preventivos feitos
na Estação de Tratamento de Água (ETA) do bairro
Belmonte, cheiro de solvente na água do Rio Paraíba do
Sul. Por isso, às 6h45min de ontem, suspendeu a captação
de água, como um ato preventivo para que a população
não seja prejudicada.
Devido à contaminação
da água, no início da manhã as pessoas que caminhavam
pela Avenida Almirante Adalberto de Barros Nunes (Beira Rio) viram na
superfície do rio, vários peixes mortos e outros buscando
oxigênio. Em Volta Redonda o problema é mais visível
no trecho entre os bairros Belmonte e Niterói.
Servatis diz que produto
que vazou é usado na fabricação de inseticidas
A Servatis divulgou nota à Imprensa no final
da tarde de ontem esclarecendo que havia identificado, após detalhada
investigação, um vazamento de 1.500 litros do produto
endosulfan, usado na fabricação de inseticidas. De acordo
com a nota, a empresa protocolou uma auto-denúncia junto aos
órgãos ambientais Feema (Fundação Estadual
de Engenharia do Meio Ambiente), Amar (Agência do Meio Ambiente
de Resende) e ao Ministério Público uma auto-denúncia,
esclarecendo os motivos do vazamento acidental, ocasionado por uma falha
em uma conexão de um caminhão-tanque. A auto-denúncia
será protocolada também no Ceivap (Comitê para Integração
da Bacia do Rio Paraíba do Sul).
A empresa esclareceu ainda que o produto em contato
com a água entra, imediatamente, em processo de hidrólise
(decomposição pela água), “não oferecendo
nenhum risco de contaminação a seres humanos”. De
acordo com a gerência de meio ambiente da empresa, análises
realizadas ontem apontaram que a concentração do endosulfan
no Rio Paraíba do Sul caiu para 0 (zero), não oferecendo
mais riscos à fauna.
- Fomos alertados pela Feema na tarde de ontem (anteontem)
que existia a possibilidade desse vazamento ter acontecido da empresa
e, imediatamente, demos início a um detalhado processo de investigação,
que ficou pronto no final da manhã de hoje - disse o gerente
de meio ambiente da empresa, Guilherme Gama. E completou:
“O efeito do endosulfan é agudo, porém
não prolongado. As chuvas ajudaram na decomposição
do produto pela água e não há mais nenhum tipo
de risco. Em outra análise encomendada pela empresa, amostras
de água potável recolhidas, especificamente de cozinhas,
dos municípios localizados às margens do Rio Paraíba
(Porto Real, Quatis, Barra Mansa e Volta Redonda) confirmaram a ausência
de qualquer contaminação do produto em questão,
portanto não existem restrições para a captação
de água”.
Inês Pandeló lamenta vazamento de produto
químico no Paraíba
A deputada estadual Inês
Pandeló (PT) lamentou o vazamento de produto químico ocorrido
anteontem no Rio Paraíba do Sul.
- Infelizmente, mais uma vez o meio ambiente sofre com
a ação do homem, provocando além da contaminação
da água, a mortandade de inúmeros peixes. Faço
aqui um apelo para que a Comissão de Meio Ambiente da Assembléia
Legislativa e Secretaria de Estado de Ambiente apurem os fatos –
disse Inês.
Ela ainda esclareceu que o prazo da Comissão
Especial do Rio Paraíba expirou e portanto a atribuição
do acompanhamento do caso é da Comissão Especial do Meio
Ambiente, criada para analisar e votar o projeto do ICMs Verde e que
deverá ter sua publicação nos próximos dias
no Diário Oficial do Estado.
Nelson envia ofício
à Feema
O deputado estadual Nelson Gonçalves
(PMDB) enviou ontem oficio à presidente da Feema, Ana Cristina
Henney, solicitando punição para os responsáveis
pela poluição no Rio Paraíba do Sul. “Situações
como esta precisam acabar e que a população não
pode permitir que as águas do Rio Paraíba continuem recebendo
produtos tóxicos”, frisou o deputado.
Rio tem 1.120 km de extensão
e corta três estados
Formado pela confluência dos rios Paraitinga e
Paraibuna, o Rio Paraíba do Sul nasce na Serra da Bocaina, no
Estado de São Paulo, fazendo um percurso total de 1.120Km, até
a foz em Atafona, no Norte Fluminense. A bacia do rio Paraíba
do Sul estende-se pelo território de três estados - São
Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro - e abrange uma área aproximada
de 57.000km².
No Estado do Rio de Janeiro, o Rio Paraíba percorre
37 municípios, numa extensão de 500Km. O rio é
a única fonte de abastecimento de água para mais de 12
milhões de pessoas, incluindo 85% dos habitantes da Região
Metropolitana, localizada fora da bacia, seja por meio de captação
direta para as localidades ribeirinhas, seja por meio do rio Guandu,
que recebe o desvio das águas do rio Paraíba para aproveitamento
hidrelétrico. Nesta bacia, está localizado o sistema hidroenergético
de Furnas Centrais Elétricas, representado pelo reservatório
de Funil e da empresa Light, constituído por 5 reservatórios:
Santa Cecília, Vigários, Santana, Tocos e Lajes.
Em Barra do Piraí, 2/3 da vazão do rio
Paraíba é captada e bombeada na elevatória de Santa
Cecília, para as usinas do Sistema Light, as quais, juntamente
com uma vazão de até 20m³/s desviada do rio Piraí,
contribuem para o rio Guandu, onde se localizam a captação
e a estação de tratamento de água da Cedae.
A considerável expansão demográfica
e o intenso e diversificado desenvolvimento industrial ocorridos nas
últimas décadas na Região Sudeste, refletem-se
na qualidade das águas do rio Paraíba, podendo-se citar
como fontes poluidoras mais significativas as de origem industrial,
doméstica e da agropecuária, além daquela decorrente
de acidentes em sua bacia.
O trecho fluminense do rio é predominantemente
industrial, sendo a mais crítica a região localizada entre
os municípios de Resende, Barra Mansa e Volta Redonda. Ao mesmo
tempo, a bacia do rio Paraíba do Sul é especialmente sujeita
a acidentes, não só pela expressiva concentração
de indústrias de grande potencial poluidor, como pela densa malha
rodo-ferroviária, com intenso movimento de cargas perigosas que
trafegam pelas rodovias Presidente Dutra (Rio-São Paulo) e BR-040
(Rio-Juiz de Fora), e acidentes ocorridos em outros estados que chegam
até o Paraíba através de seus rios afluentes.
Atualmente, a mais notória e prejudicial fonte
de poluição da bacia do rio Paraíba do Sul são
os efluentes domésticos e os resíduos sólidos oriundos
das cidades de médio e grande portes localizadas às margens
do rio. A única ação capaz de reverter esta situação
é a implantação de estações de tratamento
de esgotos e construção de aterros sanitários e
usinas de beneficiamento de lixo domiciliar.