Agricultura ecológica
produz mais e melhor
Por Lim Li Ching* - Marzo 2009
Oakland, Estados Unidos, 9 de
março (Terramérica) - Embora poucos questionem que a
agricultura ecológica seja melhor para o meio ambiente e as
pessoas, existe o temor sobre sua suposta insuficiência produtiva.
Estudos recentes mostram que os rendimentos da agricultura ecológica
são, em geral, compráveis aos da convencional em países
desenvolvidos e significativamente altos em regiões em desenvolvimento,
especialmente onde os investimentos são baixos, como na África.
Um estudo mundial, com dados de 293 exemplos (Catherine Badgley, 2007),
constatou que a diferença de rendimento da agricultura orgânica
(que não utiliza produtos agroquímicos) com a não
orgânica era pouco inferior a 1 no mundo desenvolvido, mas superior
a 1 nas nações em desenvolvimento.
Em média, sistemas orgânicos
em nações ricas chegam a 92% do rendimento dos convencionais,
enquanto em países em desenvolvimento agricultores orgânicos
produzem 80% mais do que os tradicionais. Os pesquisadores estimaram
que hipoteticamente os métodos orgânicos poderiam produzir
alimentos suficientes, sobre uma base global por pessoa, para manter
a população mundial e, talvez, uma maior, sem acrescentar
mais terras à produção. Os dados sugerem que
fazer plantação de proteção com leguminosas
pode fixar suficiente nitrogênio no solo como os fertilizantes
sintéticos em uso.
Em uma avaliação
de 286 projetos em 57 países, descobriu-se que os agricultores
aumentaram sua produtividade em 79%, em média, ao adotar uma
série de práticas, como manejo integrado de pragas e
nutrientes, cultivos de conservação do solo, agrorreflorestamento,
coleta de água em terras secas e integração de
pecuária e aquicultura nos sistemas agrícolas. Essas
práticas também reduziram efeitos adversos sobre o meio
ambiente e renderam benefícios, como a mitigação
da mudança climática, evidenciados em um uso mais eficiente
da água, absorção de carbono e menor uso de pesticidas.
Outros dados parciais mostram
que:
- A média de produção de alimentos subiu 73%,
para 4.042.000 pequenos agricultores de cereais e tubérculos
em 3,6 milhões de hectares.
- A produção de alimentos aumentou 150%, para 146 mil
produtores em 543 mil hectares de tubérculos (batata, batata-doce,
mandioca).
- A produção total aumentou 46% em propriedades agrícolas
maiores na América Latina.
- Na África, o aumento do rendimento médio das colheitas
foi maior do que a média de 79%, com 116% para todos os projetos
estudados de produção orgânica no continente e
128% no leste da África.
Os estudos sobre produção
de alimentos com métodos orgânicos mostram crescimento
na produtividade por hectare, o que desmente a crença de que
a agricultura orgânica não pode aumentar a produtividade
agrícola. Dados de 2002, 2003 e 2004 do Projeto Tigray (Etiópia),
em curso desde 1996, mostraram que, em média, as terras fertilizadas
com compostagem (humus obtido por decomposição de resíduos
orgânicos) deram rendimentos muito superiores às tratadas
com adubos químicos.
Em Honduras e na Guatemala, 45
mil famílias quase quintuplicaram os rendimentos com uso de
adubos verdes e esterco animal, cultivos de cobertura do solo, faixas-filtro
de ervas para capturar potenciais contaminantes, e lavoura entre fileiras.
Agricultores das difíceis regiões montanhosas do Peru,
Equador e da Bolívia triplicaram os rendimentos da batata,
principalmente com adubos verdes.
No Brasil, o uso de adubos verdes
e plantações de proteção aumentou o rendimento
do milho entre 20% e 250%, enquanto no Peru a restauração
das terraças de cultivo pré-colombianas levou a aumentos
de 150% em colheitas no Altiplano. Em Honduras, práticas de
conservação do solo e fertilizantes orgânicos
triplicaram ou quadruplicaram os rendimentos. Em Cuba, com mais de
sete mil hortas orgânicas urbanas, a produção
saltou de 1,5 quilo para quase 20 por metro quadrado.
Na Ásia, a irrigação
compartilhada nas Filipinas elevou o rendimento dos arrozais em cerca
de 20%. Além disso, há informes de aumentos de 175%
em fazendas do Nepal que adotaram práticas agroecológicas,
enquanto no Paquistão os rendimentos de manga e cítricos
subiram entre 150% e 200% graças a técnicas como cobertura
das plantas com resíduos vegetais, semeadura direta e o uso
de compostagem, entre outras.
A Avaliação Internacional
do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento
Agrícola (IAASTD), um estudo de três anos publicado em
2008, afirma que é preciso aprofundar a pesquisa e a implementação
de técnicas agroecológicas para enfrentar os problemas
ambientais e aumentar a produtividade. Além disso, os enfoques
ecológicos permitem melhorar a produção local
de alimentos com baixos custos, técnicas e insumos acessíveis
e livres de dano ambiental.
* Lim Li Ching é pesquisadora
do Oakland Institute e do Programa de Biosegurança da Rede
do Terceiro Mundo. Direitos exclusivos IPS.
Artigo produzido
para o Terramérica, projeto de comunicação dos
Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)
e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service
(IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.